HOJE É O MEU ÚLTIMO DIA...




(...)DENOMINAMOS AS VIDAS, COMO : A PORCA DA GORDA, A CABRA DA MAGRA, O ESTÚPIDO DE MERDA, A IDIOTA TRAIDORA. A CABRA INSENSÍVEL, O SACANA SEM LEI, OS MALANDROS SEM DESTINO, OS CRUCIFICADORES DE EMOÇÕES, DESAFIADORES E ACUMULADORES DE DESGRAÇAS. A COMIDA QUE NÃO PRESTA, A CASA QUE É PEQUENA, A RUA QUE DETESTO, AS PESSOAS QUE ME EMPESTAM.(...)


Hoje é o meu último dia. O último dia em que me faço presente, face já de si a uma ausência esperada e de consequência eterna. O dia em que relembro que poderia ser lembrado de outra forma. Mas o que poderia ter feito eu, para merecer tais louros? Ou talvez não merecesse. Porque que importância tem a minha importância, se não me fizer importante? Rapidamente deduzo para mim que poderia ter amado, ter cuidado, ter tratado, com outro sentido ou sem sentido nenhum. Afinal e na verdade nem tudo o que às vezes parece destinado a fazer sentido o faz na verdade.


Neste último dia, dar um outro sentido seria talvez, a revelação da mudança desejada e tantas vezes não alcançada. Mas atenta-te! Sempre pensada, sempre e inabalavelmente prometida. Nestas promessas mantidas, de idas e vindas, há retornos que não voltam. Mas chego hoje ao meu último dia. E que mais posso fazer, não havendo mais por onde fazer? Que triste é saber, que não haverá outra oportunidade. Digo, outro dia. Apenas…mais um dia. A página fecha-se, o livro esse, vê-se repentinamente, num estado de nervoso miudinho.


Repensando que esta tradução de último dia, último sono, poderá ter sido possível, que esta vida tenha passado tão depressa num caminho, infelizmente sem regresso. Terei sido eu o causador de uma pressa de vida ou de uma inércia perante a mesma? Que mais há a fazer, quando já nada resta fazer? Hoje é o meu último dia. Engraçado pensar que que podíamos ter retirado as guilhotinas que nos prendiam em relação a um suposto amor. Podíamos ter largado aquele trabalho que nos consumiu de dor e humilhação.

Podíamos ter tentado abordar aquela rapariga no bar, na rua, tentando realizar e colocar em prática os nossos desejos, as nossas vontades. Somos seguidores de regras. Não fomos verdadeiros leões, conquistadores da vida, perseguidores de felicidades. Amamentamos a esperança tendo ao nosso lado a felicidade mascarada de inércia. O tempo oferece-te todo o tempo do mundo. Mas vives num tempo sem tempo para esse tempo.


Um dia igual para mim e para tantas outras vidas e faces, que hoje, dão o seu último suspiro terreno. Esvai-se pois a vida num último sopro. Ainda que grites: “Preciso de tempo”, o tempo não tem mais interesse em ti. O tempo não tem mais interesse nas tuas lutas, nos amores que fazes, nas desgraças que deixas plantadas, nas dores que foram marcadas. O tempo vive agora na idealização de um novo nascer do dia. Não para ti. Mas sim para aqueles marcados como leões. Os desbravadores de caminhos, os corajosos, os idealistas da felicidade, os percursores que entendem do conceito da vida. Esses que fomos todos, esses de nome sonhadores de felicidade, que hoje se remetem a um final pleno de instabilidade, de pura infelicidade.


Entre tantos momentos em que se respira vida, com tantas horas e minutos à mão de semear, hoje há um tempo limite. Nestas últimas horas, últimos minutos dou comigo a pensar, como tantos de nós vestem a capa do leão e vivem a vida do camelo. Do dromedário. Inertes, aguardando mudanças que não chegam. Fazendo promessas que não cumprem. Roubando energia alheia de forma a finalizar a sua vida com a terminologia de: “ Aqui fui feliz”.


A determinação da finitude, despede-se de mim e parabeniza solenemente o ato de poder ter pertencido a este mundo. Tristemente olha-me e questiona-me: “Porque não foste capaz de mais?” O que poderei responder se nada há para contrapor uma verdade? Esta vida, deixa-me com um beijo sentido de agradecimento. Não pelo que fiz. Sei que ela está zangada comigo. Essencialmente pelo que não fiz.


Há quem se despeça com pena, nem sabendo do tema que reflete quem sou. Há quem não conheça e não saiba, de que passado fui, de que presente pertenço ou de que lembrança de futuro serei. Há quem receba a notícia mais tarde e há quem nunca chegue a receber. Há quem passe, passando, deixando apenas um olhar, que se vislumbra distante e frio. Comentando apenas: “Eis outro alguém que se esvai. Que nome teria? E quem ele seria?”

Passamos pela vida onde a denominamos como um puro cavalo selvagem. Colocamos a nossa sela e corremos em conjunto feito loucos, deambulando, sem paragens, sem destinos concretos.

Aprendemos pouco da essência da vida. Roubamos tudo com os nossos sentidos em forma de desejo e colmatar o verdadeiro sucesso. Trocamos o cheiro do mar, pelo brilho de um carro. Trocamos um riso sentido, por uma roupa de marca. Adornamos amor com dinheiro e seu favor. Dormindo em cantos, recantos em amores que nos recebem em amores que deixamos, em amizades que fazemos, em relações que estabelecemos. Somos os justos puritanos e os monstros desumanos. Somos empréstimos de curta duração à vida. Às pessoas, aos momentos. E exigimos sempre o seu pagamento. Exijo que se dê. Exijo que se receba. Paramos rapidamente para beber água dos loopings de amores efémeros, para consumir da energia de quem nos faz bem e nos prostramos para que nos seja roubada a luz de quem nos quer mal.


Deixamos a marca de amores construídos e desfeitos, de frases incongruentes. Guardamos ódios, destruímos pontes, planeamos a eternização de raivas, julgamentos depreciativos, críticas mundanas. Desconstruímos a humanização que nos foi oferecida, porque não a trabalhamos. Somos leões na arte da maldade, camelos na pintura da verdade.

Denominamos as vidas, como : A porca da gorda, a cabra da magra, o estupido de merda, a idiota traidora. A cabra insensível, o sacana sem lei, os malandros sem destino, os crucificadores de emoções, desafiadores e acumuladores de desgraças. A comida que não presta, a casa que é pequena, a rua que detesto, as pessoas que me empestam. Trabalhamos muitas vezes em conjunto numa aldeia global de bonecos de vudos, onde emprestamos todas as agulhas, para que a dor seja mantida, para que se alerte que aqueles e aquelas não prestam. Retiramos abraços, rasgamos os livros de ensinamento e oferecemos punhais para assassinatos em massa.


Os sapatos de renome, as indumentárias de lojas de marca, a beleza inconfundível que se deduzem de amores exclusivos, retratada e construída através dessas sociedades robotizadas, feita de camelos. Amores feitos de status, de ganâncias, de ambições desmedidas, imagens pérfidas de um mundo consagrado ao consumismo de puro capitalismo. Delegado a uma morte sem história, sem norte, mas que para a nossa imagem, seja a dedução de um tempo com sorte e que por enquanto, ansiamos que não possa vir por escrit: “Chegou a hora da tua morte”.


Irradiamos felicidade pelos bens terrenos e ostentamos essa conquista como o gracioso selo de um trono de purificação da alma, de conquista plena, de vida sonhada e finalmente concretizada. Vivemos em castelos de areia, onde a verdade, a mentira, a omissão, a chantagem, o prenúncio da morte é recebido com risos eternos de gozo, de quem não tem medo, de quem não se humilha, de quem não se envergonha. Perguntamos do alto do nosso ego: Por quem se tomam? Mas nunca nos questionamos: Por quem nos tomamos?

O sabor da vida transforma-se num plenário de discussões eternas, do que se fez e não se deveria ter feito. Sem mudanças, sem alterações, sem lógica, voltamos a subir para o dorso da vida e cavalgamos entre lágrimas e sorrisos na esperança de encontramos o verdadeiro sabor que nos abençoe como uma causa pela qual valha a pena lutar.


O cavalo da vida, por força do seu cansaço, de carregar um tronco inerte e não a razão da sua arte, prostra-se por fim no seu último dia, desanimado, carregado de velharias, onde suspira por fim, olhando para mim: “ Que bom seria se tivesse carregado
 um leão

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