domingo, 1 de janeiro de 2017

UM DIA VOU SER FELIZ?


Um dia eu vou ser feliz! Quantas vezes não proferiste para ti mesmo esta afirmação? Quantas vezes na penumbra do teu ser, num momento de divagação onde a constatação de uma realidade que desejas para ti tarda em aparecer, não a proferiste? Um dia eu vou ser feliz!! Um dia chegarei lá! Um dia as lágrimas que verto irão parar por certo! Um dia conseguirei realizar as façanhas que tanto almejo? Um dia vou ser feliz…


Há uma frase do Mário Quintana aquando da pergunta do porquê de ser solteiro e de nunca ter casado, ao que ele respondia: “Sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas que apenas uma desiludida!”

Isto remete-nos ao fato de que a felicidade do hoje se diferencia da felicidade do amanhã num único aspeto. O momento.

E é de momentos que o sabor da felicidade te enche com o prazeroso sentido daquilo que és, do que conquistas, do que entendes sentir no exato momento que recebes.

Seres dependente da felicidade não é a tradução de nenhuma conquista, porque ela não o foi e não sabes se virá. Dependência cria vicio. Em contrapartida o prazer de sentires, de saboreares a conquista do teu desejo, seja ela qual for, é sentida de uma forma absolutamente original, desnuda e realista. Um dia vou ser feliz, remete-te para uma condição de absoluta incerteza em ti mesmo. E logo, para a angústia da possibilidade de não o seres.

É o momento que cria a tua felicidade. Podes beber 2 litros de água por dia. Mas isso não se traduz em felicidade no que toca em matar a tua suposta sede. Ao invés, se tiveres realmente sede e beberes um copo de água, percebes como te sentes plenamente saciado, exatamente por aquele momento te ter fornecido o que realmente precisavas.
Eu entendo o conceito que tantas vezes e em tantos momentos, em que olhamos com olhos de ver as tragédias que se abatem sobre nós, as desgraças que se abatem sobre outros e reafirmamos como um juramento a necessidade que existe, que daqui em diante essa possibilidade de ser feliz, nos traga outro tipo de vida e nos abençoe como nós o desejamos.

Mas essa matriz que tantas vezes é irrisória, vazia e incerta, carrega consigo apenas o vislumbre de algo que ansiamos. De volta para nós e ainda com o desejo de que essa felicidade se torne realidade há dois fatores em comum que exigem de nós a consumação desse mesmo desejo. A atitude e a esperança. A esperança que tenho em ser feliz e a atitude que marco em solidariedade com a mesma, de forma a que as duas caminhem em conjunto.

Esta ideologia de “Um dia serei feliz”  mortifica-se tantas vezes apenas na ideia. É uma esperança mortificada, uma atitude vegetativa e de costas voltadas de uma para a outra e sem necessidade uma da outra. É a ideologia esperançosa de uma guerra vazia, de conceito sem armas. 

A ideia de seres feliz agrega o que fazes com o teu momento, os teus momentos, de que forma bebes e recebes todas as pequenas benções que vais tendo no teu percurso. Um dia vou ser feliz não se compadece com o passado ou futuro. Já o foste e hoje não és? Já o desejaste e já o foste? Olhando para trás percebes que os sorrisos outrora tidos e mantidos na tua memória são a consequência dos momentos que tiveste.

Quem está preso para sempre não se pode dar ao luxo de dizer: “ Um dia vou ser feliz”. Ainda assim…se receber visitas, esse momento traduz-se no dia da felicidade do mesmo. Aquele momento em que perpetuas o momento.

E quanto a ti? Queres perder-te na ideia de que um dia serás feliz? Ou preferes perder-te na esperança de que hoje é o dia…para seres feliz?









Um comentário:

Claudia Dias disse...

Não podia concordar mais com tudo o que aqui expões. Felicidade não é um momento futuro (apesar de poder ser passado e alguma nostalgia poder remeter-nos a um sentimento de felicidade por termos vivido aquilo), mas tem de ser sim um momento presente, um aqui e agora. A frase que melhor descreve o que dizes e o que eu também penso é: "Um dia vou ser feliz não se compadece com o passado ou futuro. Já o foste e hoje não és? Já o desejaste e já o foste?"

:)