TEMPO DE IR

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Na consequência desta intensa insatisfação humana que se agrega ao estatuto de nos reiterarmos como sonhadores de uma longa e eterna vida, eis que chegará o momento. Não se macem com a ideia e comoção, que reflete a consequência natural da perda. Ela é a linha definidora, também da existência da vida. Urge entender que não dá, para ficarmos muito tempo. Temos um prazo de validade. E esse prazo é a consequência desta finitude da vida. De uma educação que termina para nós e que se fecha liminarmente, para dar lugar a quem se aproxime. Exatamente, com o mesmo olhar de descoberta que tínhamos no inicio. Quem somos? O que somos? O que fazer? Como fazer?

É a hora de outro portanto, se tornar o aluno da vida. Das alegrias que vai encontrar, dos objetivos que vai tentar alcançar, das tristezas com as quais se irá deparar. Com as dúvidas, as certezas e as incertezas. Ele não nasce preparado. Ele será preparado. Ele não nasce ensinado. Ele será ensinado. O relógio da vida não pára para chorar por ti. Ele é imortal, imortaliza-se, alimenta-se de todas as tuas memórias e esquece-se de todos os teus feitos. Não te granjeia com os louros que deduzes merecer pelos feitos de vida. O tempo não tem tempo de te imortalizar no tempo. O tempo não é feito de pó, é imortal e tantas vezes imoral e tão casual...
E há um momento de ir, assim como tempos os houve...de vir e ficar. E nesta vinda tão rápida feita de apresentações apressadas à vida, lá vamos nós sem saber muito bem o que foi feito de nós. O que se aprendeu, quem se amou, como se amou? Quem ficou para trás e quem se perdeu na angústia de não ter pedido um perdão? Quem se encontrou e jamais se esqueceu? O que se fez de nós? E o que fizemos dos outros? Este tempo de ir, estas portas que se fecham, estes amores idos, jamais reconquistados, estes amores vividos e jamais percebidos. Estas vidas jamais reconhecidas, plenas de terem sido vividas. Estas tristezas jamais apagadas. Estas ilusões feitas de profundas feridas e mágoas. Estas alegrias que não mais poderão ser vivenciadas. Este nós de mim e este eu de vós. Estas pegadas que se perdem e se apagam. Estes abraços tão sentidos, estas imagens tão vividas...

Eis que chegará o tempo de ir. De ir e não vir. De ir sem poder ficar. É uma volta que não tem volta. Um ciclo que se fecha, uma luz que se apaga, um resumo de tempo que se agrega a um livro chamado vida...

Eis que me irei por fim. E eis que me irei sem ti. Irei apenas por mim. E neste caminho onde não reconheço a idade do fim, que o tempo me deixe dizer: Ainda que não me possa lembrar mais de ti...jamais te esqueças de mim...





Comentários

Claudia Dias disse…
Excelente ensaio sobre a finitude da vida!...
Olivia disse…
Como compreendo as tuas palavras! (:

Olá, sou a Olivia. Sou nova no mundo dos blogues e encontrei o teu, por acaso.
Se gostares do meu espaço, segue-me. Seguir-te-ei de volta. Beijinhos.

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