QUE EDUCAÇÃO QUEREMOS PARA OS NOSSOS FILHOS?


Eis uma questão que a maioria dos pais não se debate tanto como deveria debater-se. E antes que se soltem as vozes de discordância que em uníssono possam rebater de forma violenta dizendo: “ Como ousas? Faço tudo pelos meus filhos, estão nos melhores colégios, damos a melhor educação, fazemos o melhor por eles muitas vezes tirando de nós!” Chamo a vossa atenção para algo tão sublimar como a arte da paciência que resulta numa obra de arte que se denomina por : Saber ouvir.       

A maioria dos pais apenas educa ou invariavelmente deseduca. O pai quer que se eduque de uma forma. A mãe não aceita que o pai se expresse da forma como o faz e como deve ser educada a criança, chamando por isso e muitas vezes à atenção à frente dos filhos, criando assim também inseguranças que se espalham por todos, na perda básica que é a confiança já de si ténue.

 A avó tenta pôr água na fervura e equilibrar a fraca linha já existente entre pai, mãe e filhos. O professor que deduz que a criança tem hiperatividade ou stresse pós-traumático perde-se em reuniões, escreve eternos recados para casa queixando-se da falta de atenção e indiretamente apresenta nas entrelinhas o dedo acusador de falhas na educação da sua ou seu submisso ou eterno aprendiz de dados científicos. O psicólogo que procura debater-se com as angústias da mesma tenta a todo custo traduzir no seu relatório as principais causas do desequilíbrio emocional da criança. A criança essa, na maioria das vezes apenas se questiona com uma pergunta: Podes fazer-me feliz?         

Opiniões divididas criam seres insustentáveis e desordenados. Somos presenteados com obras de arte dadas pelo universo e leiloamos muitas vezes ao desbarato essa condição que nos é oferecida.  Gritamos todos na tentativa de fazer o melhor, de dar o melhor: “ Eu é que sei o caminho!”      “ Eu é que sei o melhor para ti” “ Eu tiro de mim para dar a ti”, “ Debaixo do meu teto, quem manda sou eu!”, “Fazes o que te digo!” “Não responde, não sejas mal educado, não atentes contra a nossa honra” “Não exijas, não comentes, não te rebeles”. “Não insistas, não resistas”. E andamos surdos na questão que colocaram: “Podes fazer-me feliz?         
            
Sofremos de alguma demência na arte da destruição e extorsão. Exigimos e compramos essa mesma exigência com o sabor amargo da chantagem: “ Se te portares bem…tens um prémio…” “ Se tirares positiva…aumento a tua mesada!” , “Só almoças quando acabares os trabalhos” “Só falas no facebook se me apresentares boas notas.”  “Não vês o que me esforço por ti?”    

Adoramos atirar as pedras da culpabilização dos nossos problemas com o nascimento dos mesmos. “ És um ingrato! Eu que te ofereço tudo”, “ Eu que te trouxe ao mundo”, “ Se luto por ti, tens de lutar por mim”.  E a pergunta paira sempre no desespero do olhar de uma criança: “Podes fazer-me feliz?”       


Aborrecemo-nos com as suas inconstâncias, com a desordem que erradia de si mesmo. Não temos tempo, não temos paciência, arranjamos explicadores, psicólogos, professores dispostos a fazer o papel de mediadores de pais. Mas não chega! Ainda que o tempo seja demasiadamente curto para os desejos mais recônditos na arte de amar ainda tentamos arranjar tempo para que o nosso amor seja traduzido em tempo com eles…mas…deles para eles. Ahhh…porque temos a falha do tempo.            

É o nosso trabalho, é a nossa individualidade, são os nossos amigos, são as gajas giras que aparecem na nossa vida, são as mensagens do facebook, as eternas conversas entabuadas com novas paixões, desejos escondidos. Não há tempo! Não há tempo não há tempo! Queres comer? Vamos ao MacDonalds despachar isto. Tempo para uma história? Está tarde, amanhã acordo cedo. Podes ajudar-me na matéria? Não percebo nada disso, vai ao Google! E apesar de tantos esforços que nós pais fazemos…não te esqueças, tens de tirar boas notas! Tens…de respeitar! Tens de dar o melhor de ti! E eles só perguntam: “ Podes fazer-me feliz?”                      

As novas tecnologias, os jogos, os smartfhones,  em muitos casos passaram as ser as novas “Child Care Provider”. Tempo de amor? Claro…com uma positiva no teste, com um balanço válido e sustentável na escola o amor vem em forma de orgulho desmedido e gritos de regozijo : “ Tenho o melhor filho(a) do mundo!!”.       


Os pais apenas expressam o desejo de criar génios sabotando a própria criação e prontos para o mercado de trabalho. Quando a grande maioria das nossas crianças passa 80% do seu tempo em escolas rodeadas de professores, diretores, sub-diretores, delegados de turma, horários esquematizados e a necessidade de praticamente todos os dias terem trabalhos de casa e de os fazer senão lá vem o tão assustador “ Castigo”. Não passamos a ter filhos, passamos sim a ter soldados que se tenta capacitar para serem génios prontos para a nossa sociedade. E eles só perguntam: “ Podes fazer-me feliz?”    

O problema na arte de traduzir a educação reside num estado de letargia próprio dos pais que tantas vezes estão cansados, desligados da verdadeira essência do que é cuidar de uma vida humana. Muitos não tem culpa, ninguém nasce com um livro da sabedoria. Muitos fazem o melhor que podem e conseguem e muitos dão continuidade a verdadeiras obras de arte. Mas muitos…e são tantos e tantos…andam cegos, surdos e mudos.     

O que seria uma bênção da vida para nós, muitas vezes é votado ao esquecimento e dado para que a sociedade os eduque. Ela tem a necessidade de completar as suas salas de aulas com mais e mais produção em série. Nós sobrelotamos as nossas crianças, deixamos que sejam povoadas com trabalhos incessantes e esquecemos que elas só podem ser educadas, trabalhadas se as mesmas sentirem a envolvência na atividade que fazem.  

Na atividade que se chama de tempo. Tempo de amor, tempo de respeito, tempo de sabedoria. Tempo de confiança. Tempo de equilíbrio. Tempo de carinho, tempo de sustentabilidade. Tempo de amar olhos nos olhos. Tempo de dar, receber. Tempo de pazes entre pais que se esgrimam em discussões absurdas do que é melhor para o filho. Ora…seus idiotas…o melhor para o seu filho tem um nome. Amor!      O melhor para um filho tem um nome: Felicidade. O melhor para um filho tem um nome: Dedicação. O melhor para um filho tem um nome: Sensibilidade. O melhor para um filho tem um nome que se chama abraço, tem um sobrenome que se chama amo-te e uma alcunha que se define por incondicionalidade… 

E tu que no início possas ter perguntado: “Como ousas dizer que não educo o meu filho” deixo nas tuas mãos a resposta que ele (a) colocou:

“Podes fazer-me feliz?”          





Comentários

Claudia Dias disse…
Este é, definitivamente, um dos teus melhores textos! Concordo com tudo, sobretudo com a parte de se criarem soldados e não crianças... seres humanos. As inconsistências entre pais então é do mais nocivo que há, só que a maioria não percebe.

Postagens mais visitadas