OS REJEITADOS NO AMOR



Naquele final de semana saíste de casa, para te ires divertir com os teus amigos, como tantas vezes o fazias sem mim. Era a tua necessidade de respirar, de traduzir em plena verdade de atos a tua rejeição para comigo e fazendo aumentar em ti o alimento da tua necessidade, da continuidade da tua auto estima. Tu jamais poderias morrer, ainda que eu nos teus braços estivesse em súplica de morte e desejos de atenção. O alimento da tua alegria, da tua disponibilidade para os outros, de dar e receber sorrisos, teria de continuar e ser carimbada,  como apta para a continuidade de uma felicidade estritamente tua. Era o tempo e a hora de respeitares as tuas necessidades, ainda que desrespeitando a presença do outro e a necessidade dele para contigo. Era como o roubo do cobertor em noites frias para que perdurasse em ti a continuidade de vida.

Eu não percebia que a minha tristeza era um fator, dilacerante em ti. E não deduzas em ti que um homem não chora e não se rasga de dor pela falta de amor. Pelo contrário. Deduzi que nesses amores, de trocas, de partilhas, de segredos, afinidades, se percebesse a realidade de cada qual. A farsa da rejeição não qualifica o amor. O amor qualifica a rejeição como parte integrante de uma escolha, ainda que dúbia que fazemos. 

E era dilacerante, não porque sofrias com isso, mas porque te fazia sofrer a ti mesma estando perto desse sofrimento. Não era um padecer de sofrimento entre dois. O que era grito de súplica no desejo de ficares, era visto por ti como uma monstruosidade na união a mim em prantos de dor. Inqualificável essa sensação para ti, quando lá fora pernoitavam sortidos de desejos, atos de paixão intensa e vida a ser vivida.  A nossa música passava então a ser distinta. Para ti, essa rejeição refletia a falta de intencionalidade no ato de amar. Logo , a minha presença era tido como "Persona non grata" e consequentemente a minha existência apenas era sentida e entendida por mim, não como parte da consequência de não ser amado, mas como parte da ilustração de uma escolha errada.

Entre a escolha de sofrer em conjunto ou de alimentar a auto-estima rodeada de alegria, moralmente escolheríamos a primeira. A primeira aceita os abraços sentidos, deseja os carinhos, recria os afetos. Até porque o legado de humanização que trazemos dentro de nós, ainda que imperfeitos e monstruosos em tantos momentos, ainda padecemos de sentimentos de nobres burgueses deliciados na arte de dar. Mas...padecemos também de uma ambiguidade latente de desejos diversos. E onde temos o poder de decidir o que no momento nos pode fazer melhor. E por isso muitas vezes recusamos abraços, destituímos afetos, cobramos melhorias e recriamos fantasias.

Ninguém quer tolerar o sofrimento, porque glória, seja dada ao egoísmo, de não padecer de tal doença e dela fugir a sete pés.  E quando assim é e nos vemos destituídos pelo amor daquele que tanto nos dizia, tanto nos prometia, tanto nos desejava, sofremos desmedidamente, porque ansiamos a volta de quem saiu e não retorna mais. E invariavelmente quando somos rejeitados, desligados da alegria, do sentido que deduzíamos ser o pleno de felicidade  para nós, sorrimos perante o desejo da morte. As lágrimas que percorrem a nossa face não se utilizam de remos, de barcos sem rumo ou faróis que nos indiquem o norte, nesse rio de tristeza que nos assombra perante o desleixo da rejeição.

Ser rejeitado, trocado, gozado, desprezado, desvinculado de ti mesmo, não é um sinal de que tu não prestas. De que tu não vales nada. De que tu não sabes amar, não sabes cuidar. A rejeição é o botão de "S.O.S" que o amor oferece como aviso num toque intenso e ruidoso, na tentativa de te avisar de que chegou a hora da mudança. Chegou a hora da alteração, que chegou o momento de dizer não à monotonia. Que chegou o momento de refletires na concepção dos teus atos. De quem és, do que fizeste, do que podes melhorar, do que podes ainda ser.
É o aviso das escolhas que fazemos, do que desejamos na realidade, do que queremos, do que ansiamos, do que sonhamos. É um aviso à tua não "mortificação", é um aviso, é um abanão à tua estrutura. O amor avisa-te do amor que sente por ti. Do que vales para ele, do que és para ele. Do que ele ainda necessita de ti para que sobrevivas nos seus braços. O amor é a tua amante, é a tua mãe, é o filho que nunca te larga, é o conselho sábio que te identifica com o selo da vida.

A rejeição é a prostituta que se delicia com a tua tristeza. O seu chulo é a falta de coragem e a sua empresa tem o nome de apego.

Constrói a tua base humana num pressuposto: Ama quem te ama...liberta quem te destrói...

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