terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ESCRAVATURA BRANCA - O LEGADO DAS CORES SEM OBRA




Quando me foi pedido para escrever sobre escravatura branca, um dos primeiros pensamentos que me veio ao de cima, foi questionar-me sobre : "O que é a escravatura branca?". Sendo que acrescentar algum tipo de ideologia indefinido ao cariz da escravatura, separando os seus meandros e teias existentes, pecaria por ferir susceptibilidades. Até porque na sua grande maioria todos nós somos alguma espécie de escravos. Motoristas dos sonhos dos outros. Somos escravizados em todas as cores por um legado de um quadro sem obra. 

Desde sempre que o tema escravatura sempre mexeu comigo. Escravatura negra, escravatura branca, escravatura moderna, escravatura infantil, escravatura sexual, escravatura da classe trabalhadora e escravatura amorosa. Há uma imensa panóplia de deduções, teias ancestrais que impedem o homem de se soltar nos meandros de uma liberdade que é escrava dos mesmos.

Escravatura deduz-se como qualquer pessoa que esteja sobre o domínio de outra não tendo para si como resultado um final que se conclua como liberdade. É a perda da sua liberdade, a perda do seu grito de estatuto como humano. É a perda da ordem que deseja para a sua vida, sendo assim serviçal de uma desordem requerida por outro.

Eu já experenciei como talvez vocês desse lado alguma forma de escravatura. Ainda que seja encapotada em tantos casos, não nos livra de estarmos destinados a ser marionetes daqueles que não se privam de si e adoram privar os outros de si mesmos e da sua eterna liberdade. Já experenciei isso no Brasil , Arábia Saudita e Portugal.

Há uma hierarquia, um conjunto, uma denominação de empresas, das quais homens remetidos a um sistema de escravidão financeira tomam por partido amealhar tanto quanto possível um conjunto de interesses que possa, promover o seu status enquanto dirigentes, sendo agraciados por isso com os melhores repastos, seja para si, seja para o equilíbrio da sua família empresarial e  no seio familiar da sua casa.

Há nesta nomenclatura de escravatura da "parvónia", de um grau emocional de total fraqueza humana e sentido de responsabilidade para com o seu próximo. A ideia base da sustentação da sua vida, da sua empresa, do seu status, depende exclusivamente de sugar todo o "sangue" disponível para proveitos futuros.

Procuram com isso aumentar a riqueza de forma exponencial através da privação de inúmeras liberdades daqueles que o seguem. São os denominados "chicos espertos" os falsos ricos, os favorecidos e aplaudidos de pé pelas suas façanhas. De estátuas futuras não terão nada a não ser mesmo a volta a um estado de pó do que os mesmos vieram, do qual muitos não deveriam sequer ter saído. Ditadores, assassinos, corruptos, mentirosos, aproveitadores, saqueadores, branqueadores de capitais e afins, são o tipo de pessoa que um cartão vermelho é pouco para uma humilhação que deveria ser feita como nos tempos da idade média.

Se houvesse algum tipo de ressurreição para todos nós, deveríamos ser conotados seja com o que fizemos a nós mesmos, como o que fizemos aos outros. E deveria haver um critério de escolha que colocasse logo por antecipação de parte, aqueles que por esta ou por outra via se reproduziram através da privação da liberdade do outro. Quem vem por bem e que deseja ver o outro feliz como a si mesmo que viva. Mas quem por estradas e caminhos se desvirtuou, não quis ouvir ou não aprendeu, porque achou que o seu caminho era certo...que fique de parte na construção de um novo mundo.

Nós precisamos de pessoas que respirem liberdade, que produzam riqueza sustentada e equilibrada entre uns e outros. Aquele que tal como hoje se aproveitam do outro para criar as suas próprias riquezas, matar a sua própria fome, sustentar a sua família com base no roubo dos outros, ainda que numa escala hierarquizada se mantenham como os lobos ferozes e capacitados, não lhes auguro nenhum tipo de liberdade própria.

Lutam por dinheiro. Lutam por uma casa melhor, um carro melhor, mais comida na mesa, lutam por um relógio de marca, uma roupa de marca. Lutam pela compra da mulher mais virtuosa, ou da cabra ambiciosa que se compadeça com a riqueza estendida aos seus pés. Lutam por uma ida a um restaurante de classe, a iguarias mais saborosas, Lutam pelo preenchimento de uma conta bancária mais recheada, pelo lucro. Lutam por um par de viagens, por uma colégio de status para o seu filho. Lutam pela manutenção das gravatas, dos fatos, dos encontros de batidas nas costas. Lutam pela vazio, porque o ideal de ser é sustentado pela ganância, logo...tremenda pobreza que se recheia de um limbo do qual a vida se envergonha de lhes ter dito ao ouvido: " Bem vindo ao mundo".


Gente que não se compadece como gente é gente que não é titulada como gente. O que é que as pessoas tem realmente na cabeça, é a pergunta com a qual eu me questiono. É falta de amor? É falta de aprendizagens de carinhos, de afetos, de solidariedade, de saber partilhar? Foram massacradas na infância? Aprenderam com os pais a arte do roubo e ganância? Aprenderam com a vida, que liberdade só existe para eles? Que traumas carregam para se usar de outros?  São as teias que são criadas em que as pessoas caem e se tornam escravos das mesmas? É a sociedade que os impele a isso?

É o medo de perceber que não vivendo de uma forma, perdem-se? O que é que as pessoas tem na realidade na cabeça? Durante a minha vida lidei com todo o tipo de chefes e empresários. E todos tem um ponto em comum: A ganância. Eles respiram escravidão, que transformam em "Força trabalhista". Ora...que se fodam com essa frase. Sempre os ouvi atentamente sem nada dizer. Sempre achei graça aos seus discursos e forma de ver a vida. Sofredores, desgraçados que tanto passaram, lançam uma imagem de que a vida lhes custou os "cojones" que tanta falta lhes fazem para a reprodução de mais gananciosos e a perpetuação de mentiras que passam de pais para filhos. Por isso em cada cinco supostos bonzinhos que nascem...3 serão uns eternos asnos avarentos.  

Ora...passaram merda nenhuma. A grande maioria é levada ao colo por hierarquias, por conhecimentos, batidas nas costas, em que os menos capazes e atentos se deliciam com os seus eternos feitos.

Que feitos? Ghandi...fez uma obra. Jesus Cristo...fez uma obra. Marthin Luther King....fez uma obra. Madre Teresa de Calcutá...fez uma obra. Que status equivale a quem se deduz importante de obras vazias?

A escravatura branca, a escravatura negra, a sexual, a infantil é um clássico ainda dos tempos modernos. Embarcamos todos os dias com um sentido de dever para a nossa sustentação como humanos. Dependendo dos medos enraizados de não perder empregos, dar o melhor de nós e muitas vezes a privação de estar com família, de momentos de alegria, para que o lobo mau possa ver em nós algum vislumbre de retorno feito por si. Alimentamos o lobo pela manutenção dele...e pela nossa sobrevivência.

Seja aqui, no Brasil, Arábia ou outro canto do mundo deparei-me com todo o tipo de escravidão. Umas mais acentuadas que outras. E quando te questionas tantas vezes da razão desse mundo em que vivemos, dessa irmandade global de que todos usufruímos, não ser o que desejarias, no sentido da construção de um mundo equilibrado...o que me surge na ideia é que a própria concepção de um apocalipse onde sobrevivessem apenas aqueles que fazem a obra correta, aqueles que lutam pela manutenção de um por todos e todo por um....então sim...faz sentido virar o mundo ao contrário, para que possa emergir um novo conceito de vida.

A pergunta que fica é: De que parte do conceito de vida...estás tu? Porque se cego queres ser...para sempre cego ficarás...



Um comentário:

Claudia Dias disse...

E agora que já passaram os 45 minutos que demorei a ler tudo (LOL :P ), posso comentar:

Concordo com tudo, excepto com isto: "Durante a minha vida lidei com todo o tipo de chefes e empresários. E todos tem um ponto em comum: A ganância.". Bom, nem todos, mas de generalizações já falámos eheheh :P

De facto, a escravatura foi abolida mas a escravidão continua bem assente nos dias de hoje. A maioria das empresas de facto EXPLORA as pessoas... é triste e continua a acontecer porque as pessoas o permitem. O exemplo dos estágios não remunerados é um bom exemplo disto.