DIZ-ME QUEM ÉS....E EU TE DIREI QUEM SOU



Hoje existe uma apologia ao medo. Cada vez mais os segredos, as verdades, os valores ou honras, passam para segundo plano. O medo teceu uma linha quase inviolável e transformou os fortes em fracos. Fracos na hora das tomadas de decisões, fracos na arte de amar. Fracos na grandeza que a sua pequenez ditou aos mesmos. Ninguém se despe totalmente. As almas andam vestidas pela vergonha que as capacita de ditar verdades. Passeiam-se entre uns e outros, entre paixões que formam razões dúbias para contratos de futuros amores, totalmente crentes de verdades, que mais não passam de ilusões.

O filho que tem receio de mostrar negativas nos testes aos pais é fruto da imposição do medo. O pedófilo que olha para a criança e sente desejo dela é fruto do vazio, da discriminação que é alvo, porque não teve nenhuma alma que se despisse para o escutar. A mulher que receia contar ao marido com quem esteve ou onde esteve, porque deduz que toque na sensibilidade do marido como homem e reduz-se por isso a esconderijos. Falhas. Tudo isto não passam de falhas na alma. Nascemos grandes mas...como nos tornamos tão pequenos na arte da verdade. Alto e em bom som gritamos que haja liberdade total para todos, paz....mas redigimos contratos de apologia ao receio, à mentira, ao esconde-esconde. Não nos conhecemos, nos dignamos a ser humanos. Somos uma espécie de ser inconstantes, voláteis, descrentes na vida que trazemos em nós.
Andamos vestidos e vestidos nos apresentamos perante o outro. Cuidado....gritamos nós! Muito cuidado com o que se diz, com o que se expõe. Cuidado! Muito cuidado do que falamos e com quem falamos! Cuidado! Costumo dizer que envergonhamos Deuses, esses, dos quais somos feitos à sua imagem e semelhança. Envergonhamos porque não honramos a verdade. Envergonhamos porque sendo filhos da criação, corre no nosso sangue toda a complementaridade do universo. Somos fortes quando não achamos que o conseguiríamos ser. Ultrapassamos metas quando pensávamos que nunca as conseguiríamos ultrapassar. Vivemos guerras, escapamos a fomes, mortes. Somos abençoados muitas vezes pelas catástrofes que a nós não nos calham. E ainda assim, presunçosamente continuamos vestidos na alma e receosos de dar e receber amor.

Somos tão falhos como é usual dizer-se mas falhamos exatamente nesse ponto fulcral. Falhamos porque nos restringimos, nos ajoelhamos perante o medo. Falhos na coragem de dar significado ao sentido de ser humano. Porque corre mal o teu namoro? Porque corre mal o teu casamento? Porque és gay e sofres com isso? Porque és lésbica e te debates escondida? Porque olhas para uma mulher e escondes perante a tua parceira? Porque sais com um amigo ou amiga e guardas no baú do segredos as tuas vontades? Porque há coisas que não se dizem? Preferes alimentar uma mentira transformando-a na tua verdade? Porque sofres sabendo que esse não é o caminho? Que receio tens de despir a tua alma perante o outro? Que sentido tem andares vestida ou vestido à procura de amor quando sabes que assim só darás asas ao sofrimento? Quem és tu afinal que acordo um dia e nada sei de ti? Quem és tu afinal que te entregas em metades? Que te reduzes atrás das tuas mentiras traduzindo com isso equilíbrios falseados?

Choramos todos por amores perdidos, amizades descompensadas, sapos que engolimos e recriamos novamente defeitos em todos. Nervosos, desiludidos, ansiosos, massacrados, destituídos das verdades que desejamos, balbuciamos "Porquês?". Porquê comigo? Porquê contigo? Eu não devo dizer, não devo falar, não devo cutucar para não desestabilizar almas já por si desestabilizadas. Fazemos então questão de dignificar a apologia ao medo que de sorriso aberto deduzimos ser o passo certo para manter os equilíbrios necessários entre todos.

Personificamos a razão principal de continuarmos vestidos. E com isso continua o pedófilo, o homossexual, o filho que tem receio de falar abertamente com os pais, a mulher que receia a hecatombe do marido, a namorada que guarda segredinhos com receio da atitude do parceiro, a amiga ou amigo que jura lealdade e nas costas apunhala violentamente. Ninguém se despe de si mesmo na entrega ao outro pelo receio do vazio que possa ficar.

Filhos de um Deus menor eis o que somos. E que ainda ousamos criticar dizendo:" Eis o que me acontece e nada fazes!!"

Diz-me quem és...e eu te direi quem sou....

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