DESAPONTADOS


Os desapontados da vida, somos todos nós. Não há um único justo que por momentos se queira fazer passar por algum tipo de Deus, para que possa emergir de si a blasfémia de dizer que pratica justiça perante o outro. Silêncio! Nada digas! Não te dou essa condição de ripostares enquanto falo! E não me nego a dizer-te o quanto erro e que esses meus erros apenas são a razão da condição humana que em mim trago! Silêncio! Nada digas! Quem ousas pensares que és? Tu que vieste do pó e ao pó retornarás? Quão grande te achas tu?

O meu desapontamento é sobre o sorriso que trazes em ti. É o sorriso da ganância, da ignorância no amor, no desdém que fazes e que me corrói! Somos fruto da desgraça, da incoerência, da teimosia, da verbalização disforme a que nos votamos em lutas de um contra o outro, sem saber na verdade quem é um e quem é o outro. Sabes lá tu ou sei lá eu que nome se pode dar a um amor que ninguém vê e que apenas deduz que o sente, assim como o vento? Silêncio!! Não tenhas a ousadia de me interromper!

Sabes lá tu que vida tenho em mim, que soluções tinha para ti, que pensos iria eu usar para tapar as tuas feridas, que se abriam constantemente. E ainda assim, era eu, era eu...que estava sempre lá, que estive sempre lá. Mas tu...nunca pensaste que seria importante dar importância ao ato de estar. Não! Não te dou a honra para que fales! Honra se faça aos heróis que comem a terra que o diabo amassou. Honra se faça aos heróis que do nada se ousam fazer homens e mulheres de trabalho, de luta, de grandiosidade, de generosidade...de humanidade, crença essa...que sabes lá tu de que verbo vem! Que honra dignificadora de ti entendes pedir a mim? O meu perdão? Como ousas!? Como ousas considerar-te ainda a deficitária do meu perdão? Não ouses expressar-te! Não te dou esse direito! Não te dou a carga emocional da sensação que uma vitória com "V" grande exige e merece. 

Tu que te ris da doença dos outros, que deambulas nas pistas de dança da vida, que não te revês nas dores dos outros a não ser no egoísmo da tua própria dor, nos sorrisos que entendes partilhar com todos os outros, menos com quem te afaga as mágoas...o que pretendes ao fazer de mim o alvo do teu desapontamento? Do teu desapontamento? Ainda se deduz que a culpa daquele que não faz é a força matriz daquilo que deve ser feito?
Cala-te! Não te posso ouvir! Não ouses sequer aproximar-te de mim. De mim...da minha energia, da minha força, da minha dedicação, da minha emoção, da minha luta. Eu vivo nos braços de um anjo, vivo nos braços da vida que respiro, dos sons que emanam da vida. Vivo das emoções dos sorrisos, das lágrimas que seguro em mim. Vivo da sensação do conforto, da emoção que causam os dramas da vida. E tu? Tu que viras as costas, que te banqueias com a facilidade da mentira. Tu que voas por pouco, que te afastas por míseros olhares, como ousas dizer que sou o teu desapontamento? Quando na verdade...nem direito te dou a que consideres na tua anotação da vida o meu nome.

Somos todos fruto do desapontamento de uns e outros. Das falsas verdades, das irrisórias tentativas de luta, das esperas que não são mais do que gritos desesperados de liberdade que não chegam, que não são, que não exigem, que não frutificam amores e destroem as luzes outrora ligadas com o brilho natural de que vida com vida se faz vida em vida! Larga-me! Deixa-me! O que queres tu? Um bilhete rumo à tua felicidade?! Fizes-te da tua escuridão uma forma de luz disforme, onde chamas-te de infelicidade. Que infelicidade?

Conheces este som? Escutas? É o som do silêncio...não do meu desapontamento. Jamais estaria desapontado. Nada me desaponta. Ainda que o eco de mim, não viva em ti...entende...o teu, viverá sempre em mim. Não porque me faça falta. Não porque me queira lembrar de ti. Não porque os traumas da vida nos corroam, corram em nós sem que os possamos agarrar e deitar fora. O meu desapontamento não reforça a tua alegria. O nosso desapontamento não reforça lembranças ou memórias. Elas existem, elas fazem a sua parte da proximidade da cura.

Pedes o meu perdão. Eu forneço não com as lágrimas que tornaste reais em mim. Eu ofereço não com a desgraça que sobre mim se abateu. Ofereço pela simples razão pela qual o desapontamento necessita também dessa cura. Para que a minha cortina se feche, para que o nosso caso fique encerrado, preciso que vivas em mim. Porque só assim...e só apenas assim e muito mais do que tudo o resto...que no meu último suspiro de vida, possa dizer: Não foi desapontamento...foi vida vivida.

Silêncio...não ouses nada dizer...porque no nosso desapontamento não fui fui feito de ti...fui do que fiz de mim...

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