BARCO DE PAPEL



Se fechares os teus olhos...e apenas por momentos, de que te lembras tu? Não tenhas vergonha de me dizer. Eu sei...há coisas que não nos queremos lembrar, há tristezas que não queremos sentir, há amores que não queremos reviver. Não tenhas medo, estou perto de ti. Não caminhas sozinha. Se fechares os olhos, de que te lembras tu? Tu que viveste vidas que mais ninguém viveu. Tu que sofreste revezes que mais ninguém sofreu. De que te lembras tu? Abre os teus olhos...e lembra-te da força que te fez trazer da imensidão dessa tempestade até aqui.

Tu que andaste perdida pelos caminhos. Que em surdina choras-te todas as lágrimas que mais ninguém ousou chorar por ti...diz-me...de que te lembras tu? Que memória carregas que ainda em vida a suportas tão fortemente? Que barco de papel em tempestades intensas, conseguiste tu manter a flutuar até chegar ao teu porto de abrigo?

Eu sei...não tenhas medo, ninguém te fará mal. Jamais alguém te fez mal! Rasgaram-te, abriram-te feridas, ousaram fazer de ti uma marionete de sofrimentos, de descaso de amor, de ignorância mantidas, de tristezas esquecidas, mantidas, carregadas.  Eu sou parte da tua desgraça e parte da tua alegria. Eu sou parte do que choras e parte do que ris. Sou metade da música que escreves e metade da música que cantes no teu silêncio.Não tenhas medo...conheço o teu refrão! A  quem clamaste tu, que não te podia mais responder? Por quem chamaste tu nas tuas horas de agonia que não te podia socorrer? Que lágrimas ninguém te limpou e quem de ti roubou sorrisos?
Eu sei que...não tenhas medo...eu sei que que o abraço que suplicavas, não chegava nunca. Para onde teria ido essa força de carinho, de vontade que tanto necessitavas? O que é feito dos teus afetos, dos que se foram, dos que nunca quiseram ficar? O que é feito daqueles que confiavas e que te deixaram prostrada ao abismo? O que é feito das feridas que ninguém ousou curou em ti? O que é feito dos punhais cravados com egoísmo, desdém em ti? O que é feito do teu sorriso perdido? Das vidas quebradas, lançadas com o tempo no ninho da desgraça? O que é feito do ente querido que te socorria e apenas nele confiavas? O que é feito de da frase " Está tudo bem, esto aqui" e apenas te deparas-te com a solidão? Que fim te deram? Que marca de "Não necessária" te marcaram? Quem invalidou a tua vida na vida? Quem te virou as costas e as deixou marcadas com rasgos de sangue? Quem não teve coragem de se perder em ti e por ti? Quem estendeste a mão e tiveste como resposta um silêncio absurdo? Quem se riu de ti no teu choro?

O que é feito do sorriso de um pai? De um amor de uma mãe? De um filho que se foi? De um amigo não tido ou esquecido? Nesse teu barco de papel que tantas tempestades passou, que tantas ofensas sofreu, que tanta vidas já viveu, o que é feito do comandante mais importante desse teu barco?

Tu que viveste na escuridão, onde não existiam faróis que guiassem esse teu barco, de que te lembras tu? Se fechares os teus olhos, que são os meus olhos também, de que te lembras tu? Eu lembro-me...dessa visão plantada em mim e em ti. Não tenhas medo de abrir os teus olhos...partilho da tua dor. Ela não te pertence apenas a ti.

Sabes....somos feitos do mesmo barco, somos comandantes das mesmas desgraças, tristezas. Somos filhos injuriados, humilhados. Somos o silêncio que nos cobre por entre sorrisos. Somos parte do sofrimento, parte do esquecimento, somos parte da descoberta do que tivemos, do que perdemos, de quem amamos, de quem nos amou. Somos parte de quem esquecemos, de quem nos esqueceu. Não tenhas medo...de te lembrares.

Não tenhas medo de te reerguer em vida e para a vida. Não tenhas perdão pela morte, ela não merece o teu olhar distante. Tu que a olhaste de frente tantas vezes, enquanto outros fugiam de cobardia. Tu que foste marcada enquanto outros se escondiam. Tu que choraste humanamente enquanto outros se riam e dançavam à chuva, não tenhas medo! Reergue-te como o tens feito! Assume como sempre assumiste os comandos desse teu barco!  Não tenhas medo pelo teu futuro. Ele ainda não aconteceu. Não temas pelo teu passado...ele já se foi. Lembra-te...quando fechas os olhos e revês todos os revezes da tua vida, lembra-te...no teu barquinho, tantas vezes feito de papel, ele é fruto da força com que o construíste.

E que essa força do aproximar da morte em nós...seja o som de vida que pulsa em mim. 


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