O QUE TE DIZ A GUERRA CRIANÇA?



"Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento." - Albert Camus

Quem me salva do transtorno da guerra? Quem irá cuidar de mim quando todos se forem? Que maldição, que terrível maldição se apoderou de mim, de nós e de ti? Eu que nada fiz para merecer isto? Quem me ouve no meu lamento? Quem se preocupa com a minha fome? Quem sabe da minha existência e quem faz ecoar o meu lamento? Que maldição esta que não pedi? Pai? Mãe? Por onde andam vocês? Que morte me espera quando eu só queria viver só desejava viver? Onde paira a memória da minha casa? O meu grito devorador e incessante busca por ouvidos que me salvem, por olhos que se compadeçam da minha desgraça, por lábios que transgridam revoluções e corações que produzam rebeliões! Pai?? Mãe?? Onde estão vocês?

Está tudo tão escuro, tão vazio. Balas de morte, conceitos esquecidos, gentes perdidas. Pai? Mãe? Onde estão vocês? O que faço agora senão mesmo, que me permita a morrer no limbo que estou? Quem cuidará de mim? Quem me ouvirá? Quem são eles, esses homens maus que nasceram puros? O que é feito deles? E o que farão comigo? Quem são esses que me roubaram da luz e me entregam às trevas? Que fome tenho! Pai? Mãe? Onde estão vocês? Que guerra é esta? Que vida a minha? Estou tão sozinha, tão perdida, tão desesperada...tão incapacitada. O que fiz eu para merecer tal maldição? Onde está Deus? Onde estão vocês? Quem prendeu a liberdade? 

Pai? Mãe? Não vos escuto! Que medo! Medo da morte que vem e da vida...essa que se vai! Não me deixem! Não me abandonem! Não se desliguem, não me desliguem! Peço-vos! Por onde andam vocês que não vos escuto? Não vos sinto. Pai? Mãe? Que guerra é esta que nos despe de vida para nos cobrir de morte? Suplico-vos! Voltem meus pais! Voltem para mim! Voltem com o amor, voltem com os sorrisos, voltem com os abraços! Por favor....por onde andam vocês? Estou tão fraca...tão sozinha...

Que revolta a minha que não posso lutar! Que fome a minha que não me deixa rebelar! O meu sonho vê-se perdido, numa vida já de si distante. O ficará de mim? O que sobrará em mim? Pedaços de guerra? Que coragem terei? Que montanha subirei? Pai? Mãe? 

Vou crescer em silêncio, um silêncio interno! Era suposto crescer com gritos de alegria ao invés de gritos silenciosos que me rasgam a alma! São esses gritos que dão cabo de mim mamã e papá. Os gritos internos, feridos, que sucumbem a cada som.
Os gritos que  todos temem, o grito da fome , o grito da guerra , o grito deles de alegria ao matarem a nossa...a nossa pouca alegria! A alegria de viver, aquela alegria que deveríamos  cultivar dentro de nós.
Eles são tudo menos gente, eles são tudo menos pessoas! E eu papá? Como posso acreditar na bondade do ser humano se só sei ouvir gritos? Se só escuto dor? Se não vejo qualquer tipo de amor? Não vejo sangue por me ter esfolado papá! Eu vejo sangue porque me esfolaram! Esfolaram-me a mim , a ti , e a todos os outros! Esfolaram-nos a alma, porque o ódio deles é superior à bondade! Bondade? Desculpa papá...que bondade na verdade?

Se neste jogo, ao que chamam vida eles ganham, como podes tu dizer-me que ganharei o céu?  Então e eles papá o que ganham eles? E nós? Eu sei  que ao contrário de ti, da mamã, e de todos os outros, recuso-me a entregar a um ódio silencioso. É um mistério de humilhação intensa que não entendo! Não era suposto rebelarem-se contra tudo e todos? Não quero ser aquilo que fizeram de vocês, não quero ódio e com isso nem que me rasgue toda a apanhar migalhas de coragem! Eu rebelo-me!

Não quero raiva, quero apenas um cobertor onde possa curar a ferida que eles em mim deixaram. Algo que me afague, algo que possa deixar dormir por uns momentos. É tanto ruído! Curam-se com pouco as minhas feridas, sabias papá? Elas não são como as vossas. As minhas feridas são puras, porque eu me rebelo...em águas calmas e elas entendem a minha dor. É de paz a minha vida, mas é de coragem o mundo que anseio.
 
São puras porque não me calei num silêncio que não consegues escutar. É meu...exclusivamente meu. E sou tão gigante lá, que as minhas lágrimas viram oceanos onde o respeito impera. Sou apenas o curativo para a ferida, eu sou o curativo para o vazio, porque o vazio é o recomeço.  Não ligo nenhuma às vossas guerras.  

Vocês destroem-se, vocês dão-se por vencedores tantas vezes. Vencedores de guerras de pó. Eis ao que vieram e eis ao que voltarão e nada mais merecem do que isso mesmo.
E como posso desistir, só porque piquei o meu pequeno dedo no espinho da rosa? Vocês não dão luta, porque sucumbem ao medo. Percebam...a luta do coração só a pureza entende.

Mamã e papá aquilo que nos une será sempre mais forte do que nos separa. Olhem para mim, para os meus olhos. Olhos estes que tanto viram, tanto choraram ! Mamã e papá , eu acredito no amor, não acredito no ódio. Eu acredito no céu, não na terra. Mas mais do que desejar acreditar em tudo isso, como o quero, anseio ser muito melhor do que tudo isto. 

Mamã e papá , eu acredito nas pessoas boas, não nas más. Existem as boas e existem as gentes que não são gentes, os corpos sem almas, sem morada, sem poiso. Quando  eu chorei  não chorei de ódio não chorei de medo, eu chorei por pena.
Chorei por eles que desde novos desconhecem o amor. Papá e mamã, não chorem por mim e não chorem por nós. Chorem por eles, porque eles, esses sim são merecedores de pena. Que pena se tem de um assassino? A pena de não ter alma onde caiba coração.

Se algum dia me perguntarem o que sei eu da vida...posso responder com toda a certeza, que aquilo que eu sei jamais será aquilo que algum dia saberás....por uma única razão.

Sou criança coragem...


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