PRISIONEIROS DA LIBERDADE





Todos nos imiscuímos do sentido de responsabilidade que à liberdade diz respeito. Rodeados de galáxias, um universo infinito, estamos presos a um planeta recheado de regras, dogmas, ideias, guerras, mentiras, indecisões, lamentos, fórmulas de felicidade, cordeiros e lobos, aglutinados uns nos outros e presos globalmente pela teia dos condicionalismos e cheios de máscaras que possam tapar as suas próprias vergonhas.

Nascemos com o desejo de mudar o mundo, esquecendo principalmente que viemos ao mundo para nos modificar e não para o modificar. O mundo não precisa que se modifique nada. Tem já as suas catástrofes, os seus degelos, os seus oceanos, as suas terras, os seus terramotos, alterações climáticas, as suas fases. O mundo já tem as suas  próprias preocupações, inerentes ao mesmo. Não me interessa nada mudar o mundo, porque ele em si está perfeitamente correto há milhões de anos!

Não é o mundo que me preocupa, sim quem faz parte dele que me assusta. Estamos presos invariavelmente numa bola a céu aberto. E dentro deste círculo global, estamos rodeados de inúmeras pessoas diferenciadas. Cada um com o seu tipo de loucura própria. Cada um com a sua própria percentagem de caráter. Todos os anos vamos acrescentando ao rol de pessoas que vamos conhecendo sempre mais uma. Sistematicamente uns e outros vão conhecendo os prisioneiros que fazem parte desta prisão a céu aberto.

Não podemos fugir muito do lugar onde nos encontramos. Podemos ir apenas de uma ponta a outra e pouco mais. Estamos limitados neste mundo, nesta bola, neste circulo e onde invariavelmente gritamos: " Somos livres". Não somos Livres. Essa é a maior falácia inventada. Como somos livres se estamos condicionados na forma como nos locomovemos? O mundo tirando alguns aspectos culturais, é todo igual. Estradas, hospitais, centros comerciais, terras, roupas, mulheres, homens, gestos, olhares. As mesmas lágrimas que correm na china, correm aqui. Os mesmos sorrisos que se escutam na Austrália, dão-se aqui. As mesmas injustiças que acontecem em África, acontecem aqui.

Quando me falarem de liberdade, não falem da liberdade do mundo. Ela não existe. Falem-me da liberdade que existe em vocês. Da responsabilidade que carregam nessa liberdade, do que fazem uns pelos outros, dos objetivos, de fazer o bem pelo bem. Não me falem de vinganças, de ódios. Não me falem em surdina do diz que disse, do que fez e não fez.

Não me falem de traições, de mentirosos, de gente de língua afiada, de apontar o dedo daquele que tudo pensam saber  e nada sabem. Não me falem de amores infelizes, de feridas abertas, de pobres de espírito,  de sonhos desfeitos. Não me falem que A é mais bonito que B, que C é mais rico D. Não me falem que o gordo não sabe amar, que o preto é um selvagem, que o magro é um parente pobre dos musculados. Não me falem de xenofobia, de racismo, de minorias, de pobreza.

Não me falem que não conseguem mudar, encontrar amores. Não me falem que não são correspondidos, que são marionetas nas mãos dos outros. Não me falem de mudanças pela força das palavras. Falem-me de mudanças pela força dos atos. Não me falem de falta de carater, profissionalismo, de falhas de educação. Não me falem de sensibilidade, de dores incontroladas, de choros intermináveis.

Falem-me de liberdade. Não da liberdade do mundo, sim da vossa. Falem-me da liberdade de conquista, da liberdade de amar, da liberdade de cair e levantar, da liberdade de perder e saber perder. Da liberdade de amar mesmo não sendo amado. Da liberdade em dançar à chuva, da liberdade de cantar e saber escutar. Da liberdade de abraçar quem nos viola a consciência. Da liberdade de sentir o coração pulsar. Da liberdade de dar a mão, de se aproximar, da liberdade de ser e ver-se a ser.

Falem-me de tudo...não enquanto prisioneiros...mas como livres na arte de o ser.

Se é que o são....


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