A INCONSTANTE INCERTEZA DA VERDADEIRA RAZÃO DO AMOR...






Lembro-me perfeitamente desse dia. Sim, esse dia que fiquei petrificado a olhar para ti. A forma como distribuías sorrisos, como desenvolvias as conversas tão naturalmente. Lembro-me que foi amor. Não poderia ter sido outra coisa. Não vi fotos do teu corpo, não passei horas a olhar para uma tela tentando encontrar formas de colocar alguma critica relativo à tua beleza. Lembro-me que era amor...porque era o vivenciar de um olhar, o estender de uma mão, o afagar de uma lágrima, uma simbiose de sorrisos tidos, presentes, feitos e desejados. Lembro-me que era amor...

Não era o dia de me sentar na minha poltrona de D. Juan e de ir cavalgando pela eterna tertúlia de fotos, chats ou uso de algum aplicativo tecnológico para te encontrar. Não era o dia em que me colocava, atrás de um ecrã na eterna esperança de encontrar a minha cara de metade, com medo que esta necessidade de amar e ser amado encontrasse em mim o verdadeiro parceiro ideal. Lembro-me desse dia, porque era real, era sentido, era visível, era vivido...era presente. Lembro-me de que era amor...

Não era o dia de entabular conversas de horas e horas perdido no meu quarto, agarrado a um telemóvel na crença que as minhas ou as tuas palavras te transformasse na princesa que eu queria para o  meu reino. Lembro-me de que era amor...porque não era liquido...não se perdia por entre os dedos facilmente, não  se dissipava facilmente...

Lembro-me do toque, da troca da ideias, das opiniões disformes, das discussões pela noite dentro sentados no meio da rua até altas horas. Lembro-me que era amor...

Não era o dia de esperar que uma mensagem caísse no meu telemóvel, que um "Like" pudesse gerar um sorriso mínimo de alguém que se lembrou de mim. Não era o dia que vestia a minha melhor roupa como forma de impressionar o desejo da minha cobiça. 

Era o dia que desatava a correr pela escada do prédio cada vez que tocavas à campainha, fosse de pijama, de chinelos, descabelado, apenas e só para partilhar o momento de te ver eternamente. Lembro-me de que era amor...

Não era o dia de trocas de fotos sensuais, erotizadas, que me faziam sonhar com a possibilidade de te ter, possuir, com o desejo louco de cada dia que passava sem ti era o limiar do inferno em mim mesmo. 

Não era o dia em que um toque meu te faria sentir como tantas vezes já te sentiras com outro alguém. Não era o dia em que o meu beijo poderia ser comparado com o de tantos outros. O meu toque, o meu jeito, a minha forma única de ser, jamais poderia ser equiparada, constatada como a consagração de mais uma efémera estatística na tua vida...

Lembro-me que era amor quando me olhavas e tocavas em cada contorno meu como se fosses tu mesma espelhada na própria consagração e adoração do teu eu. 

Lembro-me que era amor quando percebia em ti, que parte do que fazias de ti, transformavas em mim. Como eu ficava inebriado...cego, tresloucado. Lembro-me quando era amor...

-Ainda tens em ti esse amor?
-Transformou-se, robotizou-se...alterou-se os conceitos...vive-se hoje a rapidez de ser feliz o quanto antes.
-Então perdeste essa visão de amor? 
-Não amigo...ainda me lembro quando era amor...mas desiludi-me...
-Com o quê?
-A dor da impaciência, o desnorte no amor, a ilusão, a consagração do medo, a idolatrização do receio, a rapidez das frases feitas e desfeitas, o altruísmo, o desnorte de relações,  a total certeza carimbada com o próprio selo da fúria e  da incerteza no amor. 
-Amigo....nem de toda a dor vive o homem, é um mundo novo, cheio de novas oportunidades, de uma nova era de globalização amorosa. 
-Ainda não percebeste pois não?
-O quê?
-Não é a globalização, não é o andamento e a proliferação da facilidade a um simples clik. É apenas um mundo descrente do que aprendeu. Um mundo recheado de dores várias, de feridas intensas, barbaramente hipnotizado pelo facilitismo, pela rapidez, pela necessidade...
-E não é normal buscarmos o amor de todas as formas?
-Buscas o amor...ou buscas um amor?  
-Qual é a diferença?
-Um tratará de cuidar de ti sempre....o outro tratará de se cuidar de si mesmo...
-E isso significa essencialmente o quê?
-Que um deles....se irá lembrar o que era o amor...







Comentários

Claudia Dias disse…
Tu devias era escrever um livro!

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