A VOZ DOS MIL (DES)ENCANTOS...


Sempre fui dono e senhor de uma beleza indescritível no que toca à minha...voz. É isso mesmo! A minha voz ao telefone foi e é ainda um quebra corações das mulheres. Durante anos mal dizia algo ao telefone era sempre ou quase sempre mais ou menos isto o que ouvia:

-Sim? Olá...estás boa?
-Olá...Olá...que voz tu tens!!

(Pronto! Era então o início de uma grande jornada de amor entre a ilusão do que era e a realidade do que nunca seria.)

Eu sempre fiz questão de frisar que a beleza da voz não acompanhava a beleza exterior que eu poderia eventualmente ter. Que não tinha. Magro, nariz comprido, não sendo um rapaz possuidor de beleza externa de uma forma que as fizesse ficar de quatro, costumava dizer: "Deus ao fazer a minha pintura deixou cair a tela ao chão e desci assim mesmo à terra" - "Ops...foi mal amigão..." -Deve ter ele pensado...

Deixei-me ir iludindo na alusão à frase: "Hummm...que voz....que homem!". Quase sempre que me disponibilizei a ir conhecer alguém fazia questão de dizer antes: " Olha...já percebi que gostas muito de falar comigo, mas a minha voz não acompanha a minha beleza exterior, portanto cuidado com as tuas expetativas!!"

Respostas eram sempre as mesmas:

-Estás parvo? Não ligo nenhuma a isso! Tu és fantástico!

Neste: "Não ligo nenhuma a isso" aconteceu várias vezes perderem-se pela minha voz e perderem-se de mim também. Houve momentos à porta de algum centro comercial, de algum bar que de longe já me tendo tirado as medidas, ligavam e diziam:

-Bruno...desculpa, não deu para ir ter contigo, fica para a próxima.

Isso e tantas vezes depois de trocas de emails, conversas telefónicas intensas, chegar ao vivo e veres aquele sorriso amarelo do estilo: "Ohhhh...não era bem aquilo que esperava..." é algo muitas vezes de aterrador. Quantas vezes as inúmeras conversas e partilhas não acabaram em 5 minutos num simples café e : "Olha...tenho de ir...foi um prazer conhecer-te!"

Falava com os amigos muitas vezes sobre isto  e dizia:

-Já viste isto? Falo durante semanas quase todos os dias...andam perdidas com a voz, chego ao vivo e piram-se! Não entendo! Não percebo o que as mulheres desejam realmente!
-Pois...o espelho da tua realidade é a imagem da ilusão delas...

Eu vou concentrar-me no ponto do: "Não ligo nenhuma a isso!" Não é bem assim! Por muito que tu sejas fantástico, tenhas uma beleza interior ao nível de um Deus Grego, o que marca sempre inicialmente é  o impacto exterior. Não há como fugir disto. Durante anos ouvi de amigas, namoradas, conhecidas, casadas, solteiras e afins sempre a mesma ladainha. 

-Bruno, eu não consigo encontrar uma pessoa de jeito! Só sacanas, doidos, aventureiros, traidores, gajos parvos, ciumentos, preguiçosos, cheios de manias...estou cansada! Quero um amor de verdade! 
-E que tipo de pessoa anseias?
-Ahhh....tem de saber ouvir, ser cavalheiro, saber amar da melhor forma, entender-me...é só isso que nós precisamos!!
-Então....mas se é assim, estou eu aqui..
-Bruno..se ainda fosses bonito....não fazes bem o meu estilo...
-Ah....sorry....desejo-te a melhor sorte para o looping de relações que vais ter de futuro...

Gordos, magros, bonitos, atléticos, negros, brancos. Caras estonteantes, formas de físico de deixar uma mulher à beira do colapso....de tudo existe. Não nego e nunca neguei que o impacto físico ainda é o cartão de boas vindas que fazem os olhos brilhar. Não há como negar isso. 

Com os passar dos anos fui-me adaptando aos diferentes tipos de pessoa que fui encontrando. Sempre fui tímido,  reservado, "low profile", no entanto e com o passar da idade fui subindo os patamares da auto-estima e da ousadia. 

Principalmente por ter conseguido adquirir uma visão mais humorística sobre a concepção humana, entre o que se espera e não se espera. Hoje sinceramente não ligo patavina aos conceitos de beleza que cada um possui ou possa possuir por mim.  Não é isso que faz ou traduz amores felizes e está mais do que provado! Já sou macaco velho nesse estereótipo de visão. E na verdade acabou por nunca me faltar nada, no que toca a amores. Com o tempo aprendi o equilíbrio entre a voz "gostosa" e a face menos bonita.

E o que me valeu esse equilíbrio?

Já namorei pessoas de todo o tipo. Aquelas em que muitos denominam de gordas, as magras, as menos bonitas, as mais bonitas, corpos delineados e menos delineados. Nunca olhei com ar de reprovação para quem via no olhar, no interior as pessoas fantásticas que com o tempo aprendemos a amar para sempre.  Já namorei pessoas de cores diferentes, estados de alma diferenciados. Já curti, fui traído e traí, Já caí, já me levantei.

Já esperei, já sofri, já acreditei e sobrevivi. E nisto das diferenciações, ilusões, aprende-se tanto! Estes conceitos de beleza em que mulher ou homem bonito, gorda ou magra só pode ou deve namorar hierarquicamente no seu patamar com quem se lhe assemelha é na verdade uma total falácia. Uma ideia de união completamente idealista e que na verdade é mais do que provado que beleza...caros amigos (as) não se põe na mesa.

Uma amiga há uns anos dizia-me:

-Bruno, conta com os sorrisos que te iluminam, com os abraços que te recebem como se fosses único no mundo. Conta com as lágrimas de quem deseja uma voz para se ouvir. Cresce com o descrédito dos outros, cresce com a dualidade de critérios, mesmo que seja ou vejas em tom negativo.

E foi exatamente isso que de há uns anos para cá fiz. Embelezei-me de todas as formas interiormente. Apanhei todas as dores dos outros, todas as dúvidas, receios, escolhas, deduções interiores. Peguei em todos os olhares de desaprovação e vesti-me de todas as vozes, para tornar a minha ainda mais forte. Nunca quis fazer parte do barco que parte e sim sempre, do porto de abrigo.

Hoje quando me ligam , finalmente deixei de ouvir:

-Que voz é essa!!?

E passei a ouvir:

-És a voz que precisava.

O que muda no padrão de beleza é a necessidade de saber ao invés de querer. Quem sabe, encontra. Quem não sabe...só vê partir. E quem vê partir não constrói portos de abrigo...perde-se em castelos de areia.

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