Patrões e empregados ou servos da riqueza alheia?




Hoje nos tempos que correm é muito raro ouvir-se da boca de alguém: " O meu patrão é o melhor do mundo!!" É a recessão, é a Troika, são os baixos salários que não podem ser aumentados é o comercialização dos produtos em baixa, é o cash-flow que não permite fazer com que o andamento das empresas possa então proporcionar uma melhor qualidade de vida aos seus empregados. Despedem-se pessoas com uma facilidade incrível, aumenta-se a carga horária com o pressuposto das eternas dificuldades da empresa. Mas mesmo com tantas dificuldades eu não consigo comprar um carocha e eles trocam de carro, casa, compram terrenos, fazem viagens e o conceito define-se por: "Eu tenho de viver e tu tens de sobreviver". Vivemos num mundo estranhamente egoísta. Para mim e quanto a mim existe um lema absurdamente inteligente e do qual muitos se utilizam: "Trabalha o mais que puderes, pagarei o menos possível". Já cheguei a ouvir: " Mais vale trabalhares e ganhares pouco....sabes....há muita gente no desemprego" ou melhor dizendo: "Não estás contente com o teu salário, há pessoas "loucas"para prontas a trabalhar e a receber 505 euros por mês e fresquinhas, fresquinhas para serem alvo de exploração!"! É a forma mais chantagista e baixa de manipulação e aproveitamento. 

Por experiência própria comigo e amigos de longa data, tanto como pessoas amigas e conhecidas o fado é sempre o mesmo. Exige-se que sejamos pró-activos ( e até somos) exige-se que se trabalhe mais de 8 horas a fio, exige-se que possamos saber informática, limpar sanitas, que se fale inglês, alemão, espanhol, francês, tirar cafés e galões, ir á rua tratar de tudo e mais alguma coisa,que nos possamos ausentar, que tenhamos um doutorado e se tivermos conhecimentos com gente da alta sociedade melhor ainda ( afinal ter este tipo de conhecimento é um aproveitamento extra). Mas...por esse conhecimento todo só podemos pagar o equivalente ao ordenado mínimo...ok...sem exageros...mais uns 10 euros de aumento, porque fica mal não comprares o leite para o teu filho(a).

Há anos atrás para quem se lembra, todos os anos em meados de Janeiro havia sempre um  aumento. Podia entrar numa empresa a ganhar 600 euros ( ou na altura em escudos) e passado 5 anos o valor era bem mais alto. Há anos que ninguém é aumentado. A não ser os patrões. Esses aumentam-se automaticamente com os lucros, com a qualidade de vida que vão tendo e vai subindo a fasquia conforme o andamento da empresa. Esses conseguem comprar carros, terrenos, andar bem vestidos, irrepreensível, mas o desgraçado que faz crescer a empresa tem de se contentar com uma camisa da feira da ladra e umas calças de ganga na feira de carcavelos e uns ténis rascos do chinês. 

Ai de mim se apareço com um polo da lacoste, um casaco da Zara ou com um perfume caro. Soam logo os sinos: "Hummm...andas com uma vida boa demais...estás a ficar um rival á altura...tenho de fazer algo!". Sempre tive a sensação que existe um receio generalizado dos patrões em que possamos crescer na empresa. ou melhor crescemos só até ao ponto que lhes serve os intentos. Mais do que isso seria tentativa de abuso de poder.  Querendo ou não existe uma manipulação em tudo o que nos rodeia. Jogos de interesses, lavagens cerebrais e o conceito cada vez mais exigente da sobrevivência versus distribuição de riqueza. 

É óbvio que está mal distribuída!! Como pode estar bem distribuída se um desgraçado ganha 600 euros e o patrão 4000 mil fora os lucros?  Certo seria....tu ganhares 1500 e eu 2500 mais os lucros. Redistribuição de riqueza acreditem que existem imensas empresas que fazem isso. Há imensos casos conhecidos nos estados unidos, Japão, Austrália, França. O problema é o fado português  que temos. Somos invejosos, pequeninos no pensamento, somos avarentos e temos a velha necessidade de possuir sempre mais do que os outros. Parece que existe um certo gostinho de ter o poder da manipulação, de se poder fazer com o outro a arte de manipular a vida, trabalho, salários. A dependência atroz que vejo em tantos casos é realmente a consequência de um mundo virado para o meu próprio ganho pessoal. O medo de ficar na sobrevivência, o  receio de ser "pobre", de viver uma vida sofrível, é algo atroz que leva muitos a um aproveitamento de massas. A consequência da minha existência tem de depender daquilo que o outro pode fazer por mim. Venha doente, de cadeira de rodas, tem é de fazer com que eu continue a alimentar o meu estilo de vida.

Com migalhas se pensa muitas vezes que se ajuda o outro. É a velha forma de se dizer: "Vês...não me esqueci de ti". Assim se vai conseguindo manter os postos de trabalho, alimentando aqui e ali com um milho falsificado que para a boca de muitos é o pão da sobrevivência. O saber controlar as massas de forma a instituir-se um respeito\medo é a consequência do silêncio de tantos em favor dos grandes magnatas.

Saiu na revista Forbs as pessoas consideradas serem as mais ricas do mundo. Entre esses, alguns portugueses.Belmiro de Azevedo, Américo Amorim e Alexandre soares dos santos. No total os três juntos perfazem ganhos de uma fortuna avaliada em 7.4 mil milhões de euros. Empregam muita gente? Sim, sem dúvida! Das centenas de milhares que empregam uma grande percentagem nem aparece na estatística dos pobres mais ricos de Portugal.

Belmiro de Azevedo dizia há uns meses: " É preciso baixar os salários para criar emprego em Portugal". Pelo ponto de vista dele, não era possível ter salários altos com produtividade baixa!

Fodasse....desculpem a expressão! Mas talvez se baixassem a carga horária a produtividade subiria. Vejam os exemplos: Suécia: Carga horária semanal é de 31,2., Luxemburgo 30,9, Bélgica 30,3, Dinamarca 29,7,Irlanda 29,4, Noruega 27,3, Alemanha 26,9, Holanda 26,6! Tudo países á frente de portugal. A estrutura de pensamento empresarial é outra. A qualidade de vida, a importância do trabalhador "feliz" e produtivo reflecte-se na economia do País e empresas. Quão estúpidos e ignorantes continuam a ser os nossos que não entendem isto?  É óbvio que quanto mais trabalhares, horas e horas (agora a nova moda é o banco de dados transformado num falso descanso) não produzes mais! Quem entra ás 9 da manhã ou até 8, quando chega ás 6/7 horas o nível de produtividade já baixou há que tempos! Mas não...queres sair há hora certa ouves logo " Então?? Já com pressa de ir para casa?" a vontade é de dizer: Não, claro que não!! Só vim apanhar ar, estou a pensar em deixar o filho na escola até á meia noite sem comer e ajudar-te a comprar uma casa nas Caraíbas!"

Tenho visto através de amigos a forma como se submetem a trabalhos precários, ganhando mal, sendo humilhados e onde se exige dos mesmos muito mais do que podem fazer, -"Tu? Qualidade de vida? Não...isso não! Isso é até ofensivo! Há muita gente que não gosta de ver os outros bem. Sempre tive essa noção. Incomoda que o outro possa ter tanto como eu, incomoda que nos possa apanhar na escadaria do sucesso. Exigem respeito, trabalho e um silêncio absurdamente perturbador. O "Estás aqui para trabalhar, não gostas tens bom remédio, ganhas pouco arruma outro" é a forma mais fácil de pressão desnivelada e desumana de tratar quem aos outros fornece as armas de ganhar dinheiro. É a forma que tantas vezes digo: " Sem argumentos". Muitos fazem através do medo, pressão e manipulação o jogo sujo de silenciar de uma assentada só algum tipo de sindicalismo ou revolta do outro. É o contínuo pensar pequenino, parecem ensinados, robotizados para exprimir estas frases. Pior de tudo é que neste mundo é que a passagem desta forma de pensar, de lidar , de ser tantas vezes, passa de Pais para filhos. Como o defeito, forma nunca é tratado, como os lucros crescem, cresce também o ego de cada um e que a sua forma, a sua disposição, manuseamento é a melhor forma de chegar mais acima. A minha filha (o) irá concerteza encontrar na próxima geração algo parecido com o que nos deparamos hoje. É a passagem de testemunho de uma luta muitas vezes entre o bem e o mal. O aproveitador e aquele que é aproveitado, sugado. 


Continuo a achar que o principal desnível, desvantagem é o cuidado humano, as relações humanas e na realidade perceber que a forma de distribuição de riqueza é mal feita e gerada não está ao alcance de todos. Vivemos numa sociedade que aos olhos de muito parece tão bonitinha e democrática mas é na verdade uma sociedade selvagem de chulos, de interesses, de mentiras, de omissões, de palmadinhas nas costas. 

Ninguém pode dizer mal de ninguém, ninguém pode levantar a voz, ninguém pode ousar sequer dizer que pode viver de forma mais complicada de outros. É feio...fica mal e é injurioso. Ninguém pode fazer o papel de revolucionário, de sindicalista porque fazer esse papel é tirar a comida da boca dos nossos filhos. Atrás de nós tem sempre um que quer trabalhar, que precisa de ser explorado.

Nas entrevistas que em tempos fui fiquei verdadeiramente indignado. Quando me perguntavam quanto queria receber ou a expectativa de salário mediante o que eram as minhas qualificações dizia: "A minha expectativa é de 1000 euros!" Só faltava o entrevistador chamar-me de louco! Ao que ele retorquia: "Sabe, 1000 euros é um valor muito alto para as condições da empresa! Mediante a tabela profissional o que podemos pagar são 505 euros"- Desculpe a sua empresa pelo que li, factura cerca de 12 milhões por ano, os cargos mais altos recebem uma média salarial de 8700 euros mais...lucros ou luvas ( que existem sempre) e você diz-me que para trabalhar 8\9 horas, mais um sábado só me pode pagar 505 euros?" Veja bem....pago uma renda de 300 euros ( menos do que isso é quase impossível de encontrar) água 20 euros, luz 58,60 euros, gás, cerca de 35 euros...ou seja pagando isso fico com uma média mensal de 91.40 euros. 

Tenho de me alimentar para poder produzir o melhor aqui na empresa, portanto digamos que gaste com muito esforço e a comer umas sandes, bolachas...3 euros por dia por 8/9 horas de trabalho versus alimentação. Mas espere...preciso de comprar roupa, afinal tenho de andar apresentável no trabalho, como faço? Peço um empréstimo ao banco e endivido-me? Um cartão de crédito? Tenho uma filha, entrego a uma instituição para cuidarem dela? Veja bem...você espera pagar mediante o meu trabalho uma média de 500/600 euros, porque é o que a empresa pode pagar ou na verdade aquilo que você pode ganhar comigo a mais,  na sua qualidade de vida, no pagamento de uma casa maior,  de uma escola privada para os filhos? Claro que com esse estatuto de valorização, de qualidade de ganhos, pode concerteza ter mais hipóteses de ficar com uma loiraça espampanante, uma morena vistosa, porque ela irá perceber o quanto você tem para oferecer. Ela concerteza não sabe que a sua subida a pulso na vida ou na empresa foi á custa de  trabalhadores explorados. O zé ninguém não vai ter a loira espampanante ou o dinheiro para frequentar os lugares que você frequenta. Por isso as hipóteses dele de estar a esse nível não existem. Não porque ele não pode apenas, mas porque você retira essa hipótese. Concerteza que você só será o homem da vida dessa mulher por aquilo que pode proporcionar. Somos na verdade todos o homem da vida de uma mulher quando a nossa própria vida se enche de qualidade e capacidade. Elas vibram com isso. mexe com elas. Então...por tudo isso e por tudo mais que não me permito a dizer, agradeço a sua amabilidade, mas eu valorizo-me! 

Esta conversa deveria ser assim....mas na maior parte dos casos o final resume-se a -" Certo, certo, aceito os 505 euros e estou pronto a enriquecer o seu espólio da revista forbs com muito orgulho"

Claro que nem todos os patrões são assim! 

Santos Agostinho dizia: "Uma lei injusta não é uma lei"

No dia que as pessoas se revoltarem a sério muita coisa poderá mudar...até lá...o degredo...é a imagem de marca dos "pobres" que em silêncio choram por dias melhores...




Comentários

Claudia Dias disse…
resposta: servos da riqueza alheia.
Sempre ouvi dizer: nunca se enriquece se viveres a trabalhar para outras pessoas. Nunca. O mundo é assim, há-de sempre haver exploradores e explorados. Dizem que a escravatura acabou mas é mentira, está é mais dissimulada.
Ricardo disse…
Treta.... Sou activista, empresário (mais que duas empresas) comparativamente aos colaboradores o meu salário é igual à média destes: o estado é que me explora- sou activista pelos direitos humanos, revolucionário etc. Abrir empresas está na mão de todos e todos o podem fazer mas não vejo iniciativa e a revolução nem importa, o que importa é a casa dos segredos, todos se queixam do governo mas votam sempre nos mesmos, enfim: se o povo é escravo eu tento que não seja activamente mas o problema é que os "escravos" não querem quebrar as correntes. Porque não abrem empresas e criam postos de trabalho bem pagos?

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